Saída Saudável
Como a busca por uma vida sem dor acabou mudando minha vida e minha profissão
Saída Saudável
Como a busca por uma vida sem dor acabou mudando minha vida e minha profissão
Já sentiu dor? Dia e noite? Sem que nada do que fizesse adiantasse para aliviar?
Essa foi minha vida durante muitos anos e é sobre essa jornada que quero falar. Não apenas sobre a enxaqueca, mas sobre a busca por uma saída saudável para um problema que parecia não ter solução. Quando olho para trás, percebo que essa busca acabou mudando muito mais do que a minha saúde. Mudou a forma como eu enxergava a alimentação, a medicina, o estilo de vida e, anos depois, acabaria mudando também a minha profissão.
Hoje trabalho ajudando pacientes com enxaqueca através da alimentação e de mudanças de estilo de vida, mas essa história não começou em um consultório. Começou em um quarto escuro, em dias perdidos por causa da dor, em consultas médicas, em exames, em tentativas frustradas de tratamento e em uma sensação constante de que eu estava ficando sem opções.
Tive que mudar muita coisa e sair completamente da minha zona de conforto para encontrar respostas. Durante essa caminhada, as descobertas foram tantas que acabaram me levando por caminhos que eu jamais imaginei percorrer. Mas, para contar essa história, preciso voltar muitos anos no tempo.
Não sei dizer exatamente quando começaram as minhas dores de cabeça. Eu tinha dores quando criança, mas não acredito que fossem enxaqueca. Eram relativamente frequentes para uma criança, mas não chegavam a ser incapacitantes. Não precisava me trancar em um quarto escuro e não lembro de apresentar os sintomas clássicos que mais tarde passariam a fazer parte da minha vida. Por volta dos quinze anos, comecei a sentir episódios de náusea semelhantes aos que teria durante as crises de enxaqueca, mas ainda sem a dor. Eram esporádicos e eu não fazia ideia do que aquilo significava.
Aos dezoito anos as dores chegaram de verdade. Eram intensas. Muito intensas. Eu não sabia o que fazer e nada parecia funcionar. Nem medicamentos, nem repouso, nem ficar em um ambiente escuro. Muitas vezes a dor era tão forte que eu acabava vomitando e somente depois disso sentia algum alívio. Naquela época, as crises ainda não eram frequentes, mas eu também não fazia ideia do que me aguardava nos anos seguintes.
Passei alguns anos convivendo com crises eventuais de enxaqueca. Mesmo assim, comecei a procurar neurologistas para investigar se havia algum outro problema. Como eu havia sido diagnosticada com disritmia cerebral quando criança e cheguei a tomar remédio por 10 anos para isso, a primeira associação feita pelos médicos foi justamente com algum distúrbio neurológico. Mas exame após exame, consulta após consulta, nunca encontraram nada que explicasse as dores. Vou abrir um parêntese aqui para contar sobre a disritmia. Tive apenas duas convulsões em toda a minha vida. Uma aos quatro anos, acompanhada de febre muito alta, e outra aos quinze, quando estava com uma cólica intensa e não havia me alimentado adequadamente. Apesar disso, tomei medicamentos preventivos dos quatro aos dezoito anos.
Os médicos nunca associaram essas convulsões à enxaqueca. Mas existe algo curioso nessa história. Foi pouco depois de interromper a medicação para a disritmia que as crises de enxaqueca começaram a aparecer. E, muitos anos depois, só consegui me livrar da enxaqueca crônica utilizando uma dieta reconhecidamente eficaz para o tratamento de convulsões em pacientes epiléticos que não respondem adequadamente aos medicamentos. Curioso, não? Naquela época eu associava as dores principalmente a fatores hormonais. Sempre sofri muito com cólicas e ciclos menstruais difíceis. Também acreditava que alguns episódios tinham relação com exageros típicos da juventude, como noites mal dormidas ou consumo de bebidas alcoólicas. Parecia uma explicação razoável e segui a vida.
Casei cedo e engravidei aos vinte e seis anos. A gestação começou normalmente. Não apresentei os enjoos dos primeiros meses. No entanto, as dores de cabeça apareceram cada vez mais constantes e difíceis. Com cerca de três meses de gestação, passei a sentir dores praticamente todos os dias. A situação era ainda mais complicada porque durante a gestação o uso de medicamentos exige muitos cuidados e as opções são limitadas. Eu havia iniciado a gravidez extremamente motivada a levar uma vida mais saudável. Depois dos três meses fui liberada para fazer hidroginástica e estava animada com a possibilidade de me exercitar regularmente. Mas o plano durou pouco. Além das dores diárias, comecei a apresentar contrações com apenas quatro meses de gestação. Fiquei desesperada! Será que conseguiria levar a gravidez adiante? O que aconteceria com o bebê? Como suportaria aquela situação pelos meses seguintes?
Durante uma consulta, minha ginecologista me indicou um médico que estava se especializando no tratamento da enxaqueca e vinha obtendo bons resultados: o dr. Alexandre Feldman. Eu não fazia ideia de que aquele seria apenas o primeiro de muitos encontros que teríamos ao longo da minha trajetória. Naquela época o dr. Feldman ainda não utilizava a alimentação como principal ferramenta terapêutica. Depois de ouvir minha história, sugeriu o uso de Valium. Lembro perfeitamente da sensação de olhar para uma caixa de medicamento tarja preta durante a gravidez e chorar. Eu me perguntava quais seriam as consequências para o bebê? Será que aquilo era realmente seguro? Será que funcionaria? Mas também não conseguia enxergar outra saída.
Segui a orientação. As dores melhoraram significativamente. Meu filho nasceu saudável, cresceu saudável e, alguns anos depois, engravidei novamente. Durante a segunda gestação tive muito menos dores e por algum tempo acreditei que talvez o pior tivesse ficado para trás. Infelizmente, não.
As dores voltaram aos poucos. Primeiro associadas aos períodos menstruais. Depois à ovulação. Em seguida começaram a surgir sem que eu conseguisse identificar qualquer padrão. A essa altura eu já tinha filhos pequenos e sabia muito bem que a maternidade não combina com a vontade de se esconder em um quarto escuro.
Foi então que começou uma longa peregrinação em busca de respostas.
Passei por acupuntura. Na verdade, várias tentativas de acupuntura. Fiz medicina ortomolecular. Consultei homeopatas. Mudei a alimentação inúmeras vezes. Em alguns períodos cheguei a ser quase vegetariana. Fiz tudo o que me sugeriam que poderia ajudar. Eu estava disposta a tentar qualquer coisa que me permitisse voltar a ter uma vida normal. O problema é que nada parecia resolver de forma consistente. Algumas estratégias ajudavam temporariamente, outras não faziam diferença alguma, mas as dores continuavam voltando.
Claro que também procurei ajuda na medicina convencional. Consultei neurologistas, fiz exames e utilizei uma longa lista de medicamentos preventivos. Alguns causavam efeitos colaterais difíceis de tolerar. Outros simplesmente não funcionavam. Um dos médicos que consultei em São Paulo era um neurologista extremamente respeitado, daqueles com meses de fila de espera para conseguir uma consulta. Depois de acompanhar minha evolução e esgotar as opções que considerava adequadas para o meu caso, ele foi muito sincero comigo. Disse que a lista de medicamentos preventivos disponíveis havia chegado ao fim. Não havia mais nada que pudesse me oferecer.
Lembro da sensação de sair daquela consulta. Eu não conseguia aceitar aquela resposta. Será que teria que conviver com a dor para sempre? Será que aquela seria a minha vida dali em diante? Eu não queria ser a pessoa do quarto escuro. Não queria ser a pessoa que cancelava compromissos porque a cabeça doía. Não queria ser a pessoa que precisava escolher entre participar da própria vida ou tentar controlar a dor. Isso não combinava comigo. Nunca fui uma pessoa de desistir facilmente e não estava disposta a aceitar que aquela era a melhor perspectiva possível. Sem saída, comecei a tomar cada vez mais medicamentos para dor.
No início parecia uma solução razoável. Se os preventivos não funcionavam, pelo menos eu conseguia controlar parte das crises quando elas apareciam. Aos poucos, porém, os remédios deixaram de ser algo que eu utilizava ocasionalmente e passaram a fazer parte da minha rotina. Eu tomava medicamentos ao primeiro sinal de dor. Na verdade, muitas vezes nem esperava a dor aparecer completamente. Bastava sentir aquele desconforto familiar para correr atrás de um comprimido. O medo da crise passou a ser tão grande quanto a própria crise.
Os medicamentos que eu utilizava não eram drogas ilícitas nem substâncias proibidas. Eram remédios vendidos livremente nas farmácias em qualquer esquina do país. Neosaldina, Maxalt, Naramig, Flanax e tantos outros que acabaram entrando e saindo da minha vida ao longo dos anos. Sempre que um deixava de funcionar tão bem, eu procurava outro, ou adicionava ao anterior. Não saía de casa sem medicamentos. Nunca. Havia comprimidos na bolsa, no carro, na gaveta do trabalho e na mesa de cabeceira. Hoje, percebo o quanto já estava em uma relação de dependência. Na época, porém, eu tentava me convencer de outra forma. Achava que apenas era uma pessoa tentando sobreviver a uma doença incapacitante da melhor maneira disponível e possível.
A situação chegou a um ponto em que eu comprava medicamentos praticamente toda semana. Sentia vergonha disso. Sabia que alguma coisa estava errada. Sabia que não era normal depender daquela quantidade de remédios para conseguir atravessar os dias. O problema é que eu não enxergava alternativa. Tudo o que eu havia tentado até então tinha falhado. Os medicamentos talvez não fossem a solução, mas eram a única coisa que ainda me permitia manter alguma funcionalidade.
Com o tempo fui descobrindo que havia entrado em um ciclo muito difícil de romper. Quanto mais medicamentos eu utilizava, mais dores eu tinha. Quanto mais dores eu tinha, mais medicamentos utilizava. Hoje sei que isso tem nome e é reconhecido pela literatura médica como cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Na época eu apenas sentia que estava presa em uma armadilha da qual não conseguia escapar.
O fundo do poço chegou de forma inesperada. Um dia acordei me sentindo estranha. Fui ao espelho e coloquei a língua para fora. Ela estava preta de sangue. Eu havia desenvolvido uma úlcera gástrica por causa do uso excessivo de medicamentos, especialmente dos anti-inflamatórios que utilizava para controlar as crises mais intensas. E as crises intensas eram diárias. Eu tomava anti-inflamatórios todos os dias. Nada mais fazia efeito para mim.
O que fiz depois disso talvez mostre melhor do que qualquer explicação o tamanho do problema em que eu estava envolvida. Eu não parei de tomar anti-inflamatórios. Apenas passei a utilizá-los em outra forma. Continuei usando, mas agora em supositórios. Era desconfortável, desagradável e muito menos prático. Ainda assim, continuei. Quando olho para trás, percebo que aquele deveria ter sido um sinal claro de que eu precisava encontrar outro caminho. O problema é que eu ainda não sabia qual era esse caminho.
Apesar de tudo isso, tive alguns momentos de melhora ao longo do caminho. Não foram suficientes para resolver o problema, mas serviram para me mostrar que talvez existissem peças importantes daquele quebra-cabeça que eu ainda não havia conseguido enxergar.
Sempre fui uma pessoa relativamente sedentária. Olhando de hoje, isso até me parece estranho, mas durante boa parte da minha vida atividade física era algo que eu fazia para me divertir e não como um compromisso com a saúde. Dançava algumas vezes por semana, caminhava eventualmente e isso me parecia suficiente.
Tudo começou a mudar quando eu e meu marido resolvemos encarar os exercícios físicos de forma mais séria. A musculação passou a fazer parte da rotina três vezes por semana, religiosamente. Pouco depois ele decidiu começar a correr e me convenceu a acompanhá-lo. Em questão de meses eu saí da condição de alguém que nunca havia corrido na vida para participar da São Silvestre.
Não foi fácil. Mudanças nunca são fáceis. Mas existe algo interessante quando começamos a nos sentir melhor. O esforço passa a fazer sentido. Aos poucos, fomos participando de provas de rua, treinando mais e organizando a rotina em torno daquela nova atividade. E, para conseguir sustentar aquilo, outras mudanças vieram junto. Passei a prestar mais atenção na alimentação. Comecei a dormir mais cedo. Tive que aprender a respeitar horários e priorizar a recuperação. Foi nesse período que percebi uma melhora real das dores de cabeça. Não uma cura ou algo transformador, mas uma melhora suficientemente importante para me fazer perceber que estilo de vida tinha um impacto muito maior do que eu imaginava. Dormir melhor ajudava. Exercitar-me ajudava. Comer melhor ajudava. Pela primeira vez comecei a desconfiar que talvez a solução não estivesse apenas dentro de um frasco de comprimidos. O problema é que essa melhora não se sustentou.
Com o passar do tempo as dores voltaram a piorar. E isso me incomodava profundamente. Eu não conseguia entender por que continuava sofrendo tanto se estava fazendo tudo certo. Minha alimentação era extremamente regrada, pelo menos para os padrões da época. Eu me exercitava praticamente todos os dias. Dormia cedo. Cuidava da saúde e, ainda assim, continuava vivendo com dores. Nessa época, meu marido começou a questionar a quantidade de medicamentos que eu utilizava. Ele dizia que aquilo certamente estava me afetando de alguma forma. Em determinado momento sugeriu que eu simplesmente parasse de tomar os remédios para ver o que aconteceria. Resolvi tentar.
Era carnaval. Estávamos em uma casa cheia de amigos e familiares. Parei os medicamentos e esperei que as coisas melhorassem. Aconteceu exatamente o contrário. Passei praticamente o feriado inteiro trancada em um quarto escuro. Procurei atendimento médico, tomei medicações intravenosas e nada resolveu. Foi uma das experiências mais difíceis que tive durante todo esse período. Meu marido não estava errado. Eu realmente precisava parar com aquela quantidade absurda de medicamentos. O problema é que simplesmente interrompê-los não resolvia a situação. Eu precisava de ajuda. Precisava entender o que estava acontecendo comigo e encontrar uma alternativa real.
Foi então que minha irmã comentou sobre uma amiga que estava sendo tratada pelo dr. Alexandre Feldman através da alimentação. Aquilo me chamou atenção imediatamente. Eu já o conhecia da época da gravidez, mas aquela abordagem era completamente diferente da que ele utilizava anos antes. Fiquei curiosa e marquei uma consulta. Na semana seguinte ao carnaval eu estava sentada novamente no consultório do dr. Feldman. Foi uma consulta longa, detalhada e muito diferente de todas as que eu havia feito até então. Pela primeira vez alguém estava me propondo uma mudança profunda de estilo de vida e não apenas mais um medicamento. Eu sempre gostei de ler sobre saúde e alimentação. Achava que entendia razoavelmente do assunto. Mas saí daquela consulta percebendo que sabia muito menos do que imaginava.
A orientação era retirar completamente alimentos industrializados, farinha e açúcar. Não apenas reduzir. Retirar. Trigo, pães, massas, bolos, tapioca, fubá e todas as versões que costumamos utilizar para substituir esses alimentos. Eu saí da consulta cheia de dúvidas, mas também com uma sensação que há muito tempo não sentia: esperança. O dr. Feldman me recomendou a leitura do livro que havia escrito, “Enxaqueca Só Tem Quem Quer”. Eu li o livro rapidamente, mas precisava entender mais profundamente os motivos por trás daquela proposta. Foi então que cheguei ao livro “Nourishing Traditions”, de Sally Fallon. E, pela primeira vez, muitas coisas começaram a fazer sentido.
O tratamento não se limitava à alimentação. Havia uma visão muito mais ampla de saúde. Sono, rotina, estresse, atividade física, qualidade dos alimentos e diversos outros aspectos do estilo de vida faziam parte da estratégia. Hoje isso parece óbvio para mim. Na época foi uma descoberta. Os resultados apareceram. Depois dos três meses de tratamento, passei de aproximadamente trinta dias de dor por mês para cerca de seis. Foi, sem dúvida, a melhor resposta que eu havia obtido até aquele momento. Nenhum medicamento havia gerado um resultado parecido. Para alguém que vivia com dor todos os dias, aquilo representava uma transformação enorme. Mas seis crises por mês ainda eram seis crises por mês. Quem sofre de enxaqueca sabe que isso continua sendo um peso importante. Mesmo assim, comparado a tudo o que eu havia tentado anteriormente, aquele havia sido de longe o tratamento mais bem-sucedido. Hoje acredito que isso aconteceu porque o dr. Feldman procurava entender as causas do problema e não apenas controlar os sintomas.
Infelizmente, depois de algum tempo comecei a relaxar. Voltei a consumir alguns alimentos que havia retirado. Um pouco de farinha aqui. Um pouco de glúten ali. Nada parecido com a alimentação que tinha antes, mas pequenas concessões que me pareciam inofensivas. Aos poucos as dores começaram a aumentar novamente. Fiquei frustrada. Muito frustrada. Eu tinha encontrado algo que funcionava e, ainda assim, não conseguia manter os resultados. Naquela época eu ainda acreditava que deveria existir um caminho de equilíbrio, um meio-termo que me permitisse controlar as dores sem precisar ser tão rigorosa. Demorei muitos anos para entender que algumas pessoas conseguem fazer concessões sem grandes consequências. Outras não. Eu claramente fazia parte do segundo grupo.
Mesmo tentando seguir boa parte das orientações, continuava piorando. Nem eu nem o dr. Feldman conseguíamos compreender exatamente o motivo. Eu havia me tornado uma daquelas pacientes que não respondiam da forma esperada. Felizmente, desistir nunca foi uma característica minha.
Foi justamente quando eu estava tentando entender por que continuava falhando que aconteceu algo completamente inesperado. Em dezembro de 2015 ouvi pela primeira vez a Lara Nesteruk falar sobre dieta low carb. Eu já a acompanhava por indicação do dr. Feldman e tinha curiosidade sobre o assunto. A proposta parecia estranha à primeira vista. Comer como os ancestrais? Reduzir carboidratos? Naquela época essas ideias ainda eram pouco discutidas e certamente não faziam parte das recomendações tradicionais de alimentação saudável que eu havia ouvido durante toda a vida. Mesmo assim, havia algo naquela abordagem que me parecia fazer sentido.
Perto do Natal, a Lara propôs um desafio de vinte dias de “bicho e planta”. A ideia era simples: consumir apenas alimentos de origem animal e vegetal, eliminando produtos industrializados e uma série de alimentos que faziam parte do dia a dia da maioria das pessoas. Resolvi participar. Afinal, o que eu teria a perder? Naquele momento meu objetivo nem era melhorar da enxaqueca. Eu queria apenas perder alguns quilos e melhorar a composição corporal.
Vinte dias não foram suficientes para provocar qualquer mudança significativa nas minhas dores de cabeça. Mas algo aconteceu. Minhas celulites diminuíram visivelmente. Pode parecer estranho que eu esteja falando de celulite em um texto sobre enxaqueca, mas foi justamente esse detalhe que acabou mudando a minha trajetória. Quando percebi aquela melhora, comecei a pensar que talvez existisse uma relação entre as duas coisas. Tanto a celulite quanto a enxaqueca envolvem processos inflamatórios. Se uma delas havia melhorado com a mudança alimentar, por que a outra não poderia melhorar também?
Foi essa pergunta que me levou ao Google. Sim, o mesmo Google que tantas pessoas dizem que não deve ser consultado de forma alguma quando o assunto é saúde. Pesquisei “low carb and migraines” e entre os resultados encontrei um nome que mudaria completamente a minha vida: Dr. Josh Turknett.
O Dr. Turknett é neurologista e especialista em enxaqueca. O que mais me chamou atenção em sua história foi que ele próprio sofria de enxaqueca, assim como sua esposa também. Imagine dedicar a vida ao estudo de uma doença e, ainda assim, continuar sofrendo com ela. Imagine ser neurologista, atender pacientes com enxaqueca todos os dias e não conseguir resolver o próprio problema. Foi justamente essa frustração que o levou a explorar caminhos diferentes dos tratamentos convencionais. E, após melhorar significativamente através da alimentação, ele escreveu um livro chamado “The Migraine Miracle”. Li o livro praticamente sem conseguir parar. Pela primeira vez encontrei alguém descrevendo experiências que faziam sentido para mim e apresentando uma explicação coerente para aquilo que eu vinha vivendo havia tantos anos. A proposta do Dr. Turknett tinha pontos em comum com o trabalho do dr. Feldman. Ambos defendiam uma redução importante dos carboidratos e uma alimentação baseada em comida de verdade. A diferença é que o Dr. Turknett utilizava a frequência das crises como um guia para determinar o grau de restrição necessário. Quanto mais grave o quadro, maior deveria ser a redução dos carboidratos. No meu caso, a conclusão era óbvia. Eu estava entre os casos mais graves. Foi assim que cheguei à dieta cetogênica.
Confesso que a ideia me assustava. Comer tão poucos carboidratos parecia radical. Eu tinha dúvidas, medos e inúmeras perguntas. Ao mesmo tempo, já havia tentado praticamente tudo o que a medicina convencional tinha para me oferecer. Não enxergava muitas alternativas. Antes de tomar qualquer decisão, procurei novamente o dr. Feldman para ouvir sua opinião. A resposta dele foi extremamente importante para mim. Ele acreditava que valia a pena tentar.
Com essa segurança, procurei a Lara Nesteruk para me ajudar a iniciar o processo. Naquela época eu ainda não fazia ideia da dimensão da mudança que estava prestes a acontecer. Achava que estava começando mais uma tentativa de tratamento. Mais uma entre tantas outras que haviam surgido ao longo dos anos. O que eu não sabia era que aquela decisão acabaria mudando muito mais do que as minhas dores de cabeça.
Os primeiros meses da dieta cetogênica não foram exatamente como eu imaginava. Talvez porque eu estivesse acostumada a procurar soluções rápidas. Talvez porque, depois de tantos anos de sofrimento, quisesse acreditar que finalmente havia encontrado algo capaz de resolver tudo de uma vez. Mas a realidade foi mais complexa do que isso. A adaptação à dieta não foi difícil apenas do ponto de vista alimentar. Eu vinha de décadas ouvindo recomendações completamente diferentes. Reduzir carboidratos de forma tão importante parecia ir contra tudo o que eu havia aprendido sobre alimentação saudável. Além disso, eu tinha medo. Medo de estar cometendo um erro. Medo de investir energia em mais uma tentativa frustrada. Medo de me decepcionar novamente.
Mesmo assim, segui em frente. Diferentemente do que havia acontecido em outras ocasiões, dessa vez decidi fazer exatamente o que precisava ser feito. Sem concessões. Sem exceções planejadas. Sem aquele pensamento de que uma pequena transgressão provavelmente não faria diferença. Eu já tinha aprendido, da pior forma possível, que pequenas concessões frequentemente se transformavam em grandes recaídas. Os primeiros resultados começaram a aparecer por volta do quarto mês, quando as dores diminuíram e a frequência das crises também. Eu estava claramente melhor do que antes. Mas ainda não era o suficiente. Ainda precisava recorrer aos medicamentos em algumas situações e continuava procurando entender por que algumas pessoas pareciam melhorar mais rapidamente do que eu.
Comecei então a estudar de forma cada vez mais intensa. Lia livros, artigos, entrevistas, acompanhava profissionais da área e tentava compreender os mecanismos por trás daquilo que estava acontecendo comigo. Aos poucos fui percebendo que a cetose era apenas uma parte da história. Existiam outros fatores que pareciam influenciar diretamente os resultados: hidratação, eletrólitos, qualidade do sono, horários das refeições, frequência alimentar, atividade física e uma série de pequenos detalhes que raramente recebiam a mesma atenção que a alimentação.
Comecei então a testar estratégias adicionais, muitas delas inspiradas pelo próprio trabalho do Dr. Turknett e pela observação cuidadosa do que acontecia comigo. Passei a compreender melhor a importância da gordura na dieta cetogênica terapêutica. Aprendi que não bastava apenas retirar carboidratos. Era necessário criar um ambiente metabólico capaz de sustentar a produção de corpos cetônicos de forma consistente. Também fui entendendo que a enxaqueca não era apenas um problema de dor de cabeça. Existia algo muito mais profundo relacionado à forma como meu cérebro produzia e utilizava energia. Quanto mais aprendia, mais resultados obtinha. E quanto mais resultados obtinha, mais queria entender. Pela primeira vez em muitos anos eu não sentia que estava apenas tentando controlar uma doença. Sentia que finalmente estava começando a compreendê-la.
Os meses foram passando e as crises continuaram diminuindo. O que antes parecia impossível começou a se tornar realidade. Voltei a fazer planos sem pensar imediatamente na possibilidade de uma crise. Voltei a viajar sem carregar uma farmácia inteira na bolsa. Voltei a me comprometer com atividades futuras sem a preocupação constante de precisar cancelar tudo na última hora. Talvez a maior mudança tenha sido perceber que eu não estava mais lutando desesperadamente para apagar incêndios todos os dias. Durante anos a minha vida havia sido organizada em torno da próxima crise. Tudo era decidido levando em consideração a possibilidade de sentir dor. Aos poucos, sem perceber, essa lógica começou a desaparecer.
Quando finalmente consegui controlar as crises de forma consistente, compreendi que havia encontrado muito mais do que uma dieta. Eu havia encontrado uma forma completamente diferente de enxergar a saúde. Pela primeira vez comecei a entender que alimentação, sono, atividade física, manejo do estresse e rotina não eram elementos separados. Faziam parte de um mesmo sistema. E foi justamente essa percepção que acabou despertando uma curiosidade que mudaria o rumo da minha vida. O objetivo inicial que era apenas me livrar da enxaqueca, passou a ser uma busca constante por conhecimento, busca que me levaria de volta para uma sala de aula e que acabaria definindo minha futura profissão. Mas, antes que isso acontecesse, ainda havia muito estudo pela frente, muitas perguntas sem resposta e um desejo crescente de compreender por que algo que havia transformado a minha vida era tão pouco conhecido por grande parte das pessoas que sofriam exatamente como eu havia sofrido.
À medida que fui melhorando, aconteceu algo que eu não esperava. As pessoas à minha volta começaram a perceber a mudança. Amigos, familiares e conhecidos que acompanhavam minha luta contra a enxaqueca queriam saber o que eu estava fazendo. Alguns também sofriam de dores de cabeça. Outros tinham problemas de saúde completamente diferentes, mas se interessavam pelas mudanças que eu havia feito na alimentação e no estilo de vida. Aos poucos, começaram a surgir pedidos de ajuda. No início eu compartilhava apenas a minha experiência. Contava o que havia funcionado para mim, indicava livros, explicava alguns conceitos básicos e sugeria caminhos para quem desejava se aprofundar. Mas aquilo começou a me incomodar. Eu percebia que estava ajudando pessoas, mas também percebia o tamanho da minha responsabilidade. Não queria transformar uma experiência pessoal em uma recomendação sem fundamento. Precisava estudar mais.
Foi então que iniciei uma fase de aprofundamento que dura até hoje. Fiz a formação Primal Health Coach, criada por Mark Sisson, que acabou se tornando uma das experiências educacionais mais importantes da minha vida. Aprendi conceitos que mais tarde encontraria novamente na faculdade, mas também muitos outros que jamais seriam abordados de forma adequada no ensino tradicional. Ao mesmo tempo, passei a ler praticamente tudo o que conseguia encontrar sobre low carb, dieta cetogênica, metabolismo energético, alimentação ancestral e saúde metabólica. Cada livro levava a outro livro. Cada artigo gerava novas perguntas. E quanto mais eu estudava, mais percebia o quanto ainda havia para aprender.
Entendi que o resultado que eu havia obtido não estava relacionado apenas à retirada dos carboidratos. A alimentação era fundamental, mas não atuava sozinha. Horários regulares, sono adequado, hidratação, eletrólitos, atividade física, controle do estresse, monitoramento dos sintomas e inúmeros outros fatores influenciavam diretamente a resposta ao tratamento. A enxaqueca me obrigou a enxergar a saúde como um sistema integrado muito antes de eu aprender isso formalmente.
As pessoas continuavam procurando ajuda e eu continuava estudando. Em algum momento percebi que aquela busca, que havia começado por puro desespero, estava se transformando em algo maior. Eu não queria apenas entender por que tinha melhorado. Queria compreender por que algumas pessoas respondiam tão bem, por que outras demoravam mais e por que algumas pareciam encontrar dificuldades que eu mesma havia enfrentado anos antes.Ali talvez tenha nascido a profissional que sou hoje. Não na faculdade, nem quando recebi o diploma, mas quando percebi que os erros que eu havia cometido ao longo da minha trajetória poderiam ser evitados por outras pessoas se alguém estivesse disposto a guiá-las pelo caminho. Poder ajudar as pessoas a não cometerem os meus erros, foi o que me moveu. Quando olho para trás, vejo que passei anos procurando uma saída saudável para mim mesma. O que eu não imaginava era que essa busca acabaria se tornando o trabalho da minha vida. Primeiro ela mudou a minha saúde. Depois mudou a minha forma de enxergar o mundo. E, por fim, acabou mudando também a minha profissão.






Incrível a sua trajetória, Valéria! Já estou encaminhando para várias pessoas que ficam dando murro em ponta de faca achando que vão conseguir melhorar apenas com “moderação”. Obrigada por compartilhar!
Excelente relato, Valéria. Exemplo inspirador. Uma pergunta: mesmo com todo rigor, você ainda tem crises de enxaqueca? Se sim, existe alguma alternativa aguda não medicamentosa que use?